Não é segredo para ninguém que o cinema português evidencia fortes sinais de atraso em relação a muitos mercados cinematográficos. Até o mercado espanhol nos ultrapassa, sendo uma das indústrias europeias mais conceituadas e que grande sucesso tem tido tanto a nível nacional como internacional. Mas o que é facto é que o panorama nacional para este sector artístico tem vindo a sofrer alterações notáveis no que toca a qualidade e estética que, apesar de evoluir a passos de tartaruga, já mostraram sinais de contentamento por parte do público e da crítica.
Foi depois do 25 de Abril de 1974 que este avanço se fez notar, pois começámos a desfrutar de uma liberdade que nos foi proibida durante 41 anos. Começaram a praticar-se técnicas inovadoras que ajudaram a aumentar o reconhecimento das produções nacionais e a sua difusão. Na década de 90, com o apoio financeiro do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), o cinema português levou uma renovação, uma reinvenção, pois apresentou-nos uma nova geração de realizadores como Teresa Villaverde ou João Canijo, este último que trouxe-nos Ganhar A Vida (2001), um filme sobre a emigração portuguesa que esteve presente no festival de Cannes.
Mas foi no início do século XXI que houve um certo boom nas produções cinematográficas nacionais. Foi aqui que se começaram a ver as mudanças técnicas e artísticas já mencionadas. Temos o exemplo de filmes como, em 2000, o filme Capitães de Abril, de Maria de Medeiros, que teve a ajuda de França, Itália e Espanha, conduzindo a um êxito internacional notável.
Depois vieram os comerciais O Crime do Padre Amaro (2005), que veio mostrar-se como o
filme mais visto de sempre, com 380 mil espectadores, seguido de O Filme da Treta (2006), registando mais de 278 mil espectadores. Em 2008 chega-nos o biográfico Amália: O Filme, que se tornou o quinto filme português mais visto, com 214 mil espectadores. Ainda em 2005, surge Alice, de Marco Martins, que viu o seu primeiro trabalho ser aclamado pelos críticos e venceu o prémio Regards Jeunes em Cannes e o Globo de Outro português para Melhor Filme, entre outros. Mas se formos consultar dados do ICA, na lista dos filmes portugueses mais vistos entre 2004 e 2011, reparamos que 8 de 40 produções nacionais são de 2009 e 2010.
Apesar de muitos filmes comerciais como Uma Aventura na Casa Assombrada (2009) e A Bela e o Paparazzo (2010) terem atraído o público, os destaques vão para três filmes que, em 2010, mostraram ser verdadeiras obras-primas do cinema português, surgindo mesmo quando este está no seu auge. Estes filmes são O Filme do Desassossego, Mistérios de Lisboa e José e Pilar. Estes filmes, que os críticos louvaram, obtiveram resultados de
bilheteira muito bons e um reconhecimento internacional estupendo, com a atribuição de imensos prémios. Também não nos podemos esquecer de Morrer Como um Homem (2009), de João Pedro Rodrigues, que marcou presença em Cannes na secção Un Certain Regard e ainda foi candidato à nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas não chegou à lista final de nomeados.
Concluindo, podemos sumarizar que o cinema português está a passar por uma lenta fase evolutiva. A sua transição para um cinema de melhor qualidade processa-se a conta-gotas. No entanto, podemos afirmar que as recentes contribuições financeiras e acordos internacionais com outros mercados cinematográficos veio incrementar o avanço da 7ª arte em Portugal. É certo que este sector se apoia muito no cinema comercial, mas com a realização destes ambiciosos projectos, nota-se a vontade dos cineastas portugueses de quererem fazer um cinema diferente e melhor. 2010 foi, sem dúvida, um ano próspero.
















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