Atendendo ao currículo de Steve McQueen, vemos que ele é um “novato” no campo do cinema. Apenas possui uma curta metragem (Exodus, 1997), dois filmes (Fome, 2008; Vergonha, 2011, que chega agora aos cinemas portugueses) e já tem um novo projecto intitulado Twelve Years a Slave para 2013). Em todos estes trabalhos, ele é creditado como realizador e escritor.
É uma lista curta de facto, mas Steve McQueen, aos poucos, mostra que é um sujeito que deve ser recordado. O seu primeiro trabalho cinematográfico, Fome, foi aclamado pela crítica internacional que o destacou como um dos melhores filmes do ano em 2008. Portanto, chamá-lo de novato só se justifica com o rescurso às aspas, porque este homem é um génio. O seu mais recente filme, Vergonha, é agora apresentado a Portugal, depois de ter passado por inúmeros festivais de cinema como o Festival de Cinema de Veneza. Ora, o que é falado em Vergonha?
Brandon (Michael Fassbender – X-Men: O Início, Um Método Perigoso) é um Nova-Iorquino de sucesso que evita estabelecer relacionamentos íntimos com mulheres, antes alimentando os seus desejos através de um vício compulsivo por sexo. Quando a sua instável irmã mais nova (Carey Mulligan – Uma Outra Educação, Drive: Risco Duplo) se muda para o seu apartamento, trazendo à superfície dolorosas memórias do passado de ambos, a vida insular de Brandon entra numa espiral sem controlo.
Este poderoso, verdadeiro e corajoso filme é um excelente trabalho tanto em termos de filmagem como em representação. É uma viagem à vida íntima de duas pessoas que levam uma vida que parece perfeita, de sucesso, mas não o é. Fassbender mostra-nos, com uma representação assombrosa, um homem que aparenta ser o homem-perfeito, mas que no fundo está vazio de qualquer emoção. É como um robot: programado apenas para fazer o seu trabalho, mas não possui no seu sistema o “software” do amor, da proximidade ao próximo, da intimidade. Mulligan apresenta uma rapariga deslocada e perturbada, com tendências suicidas. Estes são dois indivíduos traumatizados que só se têm um ao outro, mas nem se apercebem disso.
Steve McQueen realiza um filme cativante e intensamente íntimo. Esta é uma película que explora as profundidades do vício, e a consequente destruição da mente, que apesar de às vezes ser difícil de ver, o espectador não conseguirá tirar os olhos dela. O abuso do corpo humano é aqui retratado sem qualquer pudor nem vergonha, literalmente.
Os actores principais possuem uma química excelente, com duas personagens muito cruas, que dizem ter tido um crescimento perturbado, sem dúvida por motivos relacionados com os seus pais. Infelizmente, o filme não se debruça neste aspecto, tendo que o visor criar as suas teorias sobre o que lhes terá acontecido. São também visíveis alguns momentos parados muito extensos.
Vergonha é uma análise envolvente, oportuna e sincera sobre a natureza do desejo, sobre como vivemos as nossas vidas e as experiências que nos moldam. Um filme de qualidade que explora o “submundo” que é o desejo humano e o que ele nos leva a fazer para o satisfazer.
















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