Crítica: “Noé” é uma esplêndida versão alternativa da história bíblica que fica connosco mesmo depois de ter terminado

 

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Darren Aronofsky regressa às salas de cinema com o seu novo filme. Desta feita, ele traz-nos Noé, a sua versão da famosa história bíblica do pacifista que construiu uma arca gigante para salvar os seus e um casal de animais de várias espécies e sexo de um dilúvio eminente causado por Deus.

Noé reúne os oscarizados Russel Crowe e Jennifer Connely (Nameeh, esposa de Noé) nos papéis principais, Emma Watson (Ila), Logan Lerman (Cam), Douglas Booth (Sem), Ray Winstone (o antagonista Tubal-Caim) e o também oscarizado Anthony Hopkins (no papel de um Matusalém tipo-Yoda) estrelam nos papéis secundários.

A história é a que todos conhecem, ainda que com alguns toques e reviravoltas escritas pelo próprio Aronofsky juntamente com Ari Handel, reviravoltas essas que ajudam a perceber porque razão este filme se tornou polémico. Dizer isto pode parecer cliché, uma vez que ainda está por estrear nos cinemas um filme baseado em contos bíblicos que as facções religiosas não achem controverso, mas neste filme acontecem mesmo algumas coisas que até o mais agnóstico é capaz de pensar “ui os religiosos não vão gostar disto”. Para descobrir o que é, basta ver o filme.

Aproveito já para dizer que sim, este filme até merece ser visto em cinema, graças à sua qualidade estética. Logo de início, esta é uma película que se assume muito artística: é bonita e ao meso tempo obscura. Aronofsky trabalhou com o seu director de fotografia habitual Matthew Libatique para nos oferecer uma terra antiga recheada com céus infinitos coloridos juntamente com terrenos amplos e montes pedrosos e verdejantes, cortesia da Islândia onde grande parte deste filme foi feito.

Os efeitos visuais são espectaculares – este é um raro e ambicioso blockbuster para Aronofsky, ainda que Noé relembre visualmente o realismo mágico do seu filme de 2007 The Fountain: O Último Capítulo. Se forem ver este filme, vejam-no no maior ecrã possível, dado que em Portugal o filme não irá estar disponível em IMAX. Em certos aspectos, Noé relembra aqueles filmes de Kirk Cameron sobre o apocalipse, só que com um elenco melhor e efeitos especiais deslumbrantes. E felicidades a Clint Mansell pela banda sonora épica e arrepiante que acompanha cada momento do filme. Talvez o ponto mais jocoso da história é a recriação CG de um certos gigantes de pedra que não fazem parte da popular história, adicionando-lhe um componente de fantasia, e fico-me por aqui.

No entanto, no fundo, este filme é um puro Aronofsky – é muito dentro do género da sua filmografia. Enquanto argumentista e realizador, Aronofsky faz filmes sobre pessoas cujas obsessões as levam à loucura: o matemático em Pi, os viciados em droga de A Vida Não é um Sonho, o sonhador romântico de The Fountain: O Último Capítulo, o wrestler em, bem, O Wrestler e a bailarina em Cisne Negro. Estas são pessoas que estão dispostas a se magoarem a si próprias e aqueles que as rodeiam na perseguição das suas paixões destrutivas.

Com um argumento algo cativante, o filme permite a Crowe estar à vontade para bradar aos céus, ser intenso, corajoso ou remoer-se de arrependimento. Jennifer Connely, apesar de mostrar o seu talento, fica um pouco eclipsada no papel passivo da esposa que apenas dá apoio.  Os filhos ajudam a dar algum seguimento à história , com alguns momentos de rebeldia adolescente e hormonas a virem ao de cinema e Anthony Hopkins dá alguma levidade na qualidade de avô de Noé.

Darren Aronofky apresenta-nos um Noé diferente de todos aqueles a que já assistimos, com a ajuda de um elenco forte, efeitos visuais esplêndidos e uma fotografia de tirar o fôlego. É um filme que nos acompanha até mesmo depois de sair da sala de cinema.

 

star_groups Muito Bom

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