É muito comum um filme de gangues ser apresentado no cinema policial como uma versão glamourosa dos sujeitos envolvidos, mostrando-os num contexto intenso e empolgante, para depois desconstruir o mito criado. Um Homem de Família, baseado em factos verídicos, com a direcção do israelense Ariel Vromen escapa ao cliché, através de uma abordagem séria.
Vromen co-escreveu o argumento com Morgan Land a partir da biografia The Iceman: The True Story of a Cold-Blooded Killer, de Anthony Bruno, e também no documentário The Iceman Tapes: Conversations with a Killer, de Jim Thebaut. Todo este material de pesquisa rende ao filme um realismo incomum, especialmente em relação ao protagonista.
Michael Shannon (Boardwalk Empire, O Homem de Aço) interpreta o papel de Richard Kuklinski, assassino favorito de todas as sete famílias do crime da Costa Leste dos EUA. Segundo a sua própria estimativa, o "Homem do Gelo" assassinou mais de 200 homens (o filme fala em "apenas" mais de 100) e mostrava orgulho nisso. Ele era conhecido por congelar os corpos das vítimas, o que atrapalhava investigações policiais por impossibilitar a hora da morte.
O Kuklinski de Shannon, num excelente papel que deve definir sua carreira, é um homem de poucas palavras. Mais balbucia e rosna do que fala com seus empregadores e vítimas. Ainda que não se torne exatamente sociável, a situação muda dramaticamente quando está com a sua família com quem o protagonista relaxa o semblante, como se o amor pela esposa (Winona Ryder) e as duas filhas, que não desconfiam de coisa alguma, fosse uma redenção pelos actos de violência que acompanham o seu dia-a-dia. O assassino não extrai sequer qualquer nos seus assassinatos. É apenas um trabalho que ele cumpre com competência, sempre com uma expressão fria e dura na face.
O bom elenco inclui David Schwimmer (o Ross da série Friends, como um assassino de bigode e rabo-de-cavalo), Ray Liotta (o mafioso Roy Demeo) e Chris Evans (Os Vingadores). O último vive - com competência e um certo humor - Robert "Mr. Softee" Pronge, o conselheiro do matador, uma espécie de "Q" de James Bond, sempre pronto para testar venenos e substâncias.
Recorrendo a uma sublime fotografia, Um Homem de Família atravessa os anos 60 e 70 com tons sépia e dessaturados, atribuindo um tom retro à película. A passagem do tempo é súbtil e, aspecto interessante, dá-se através do vestuário e maquilhagem do que com recursos cinematográficos típicos em que surge no ecrã a data em que a cena ocorre. Vromen realiza um filme focado na pessoa do assassino, mas longe de se apaixonar por ele.
É uma produção sem problemas graves, mas que simplesmente não gera relação alguma com seu perigoso retratado, ou os outros personagens. A influência do documentário e a necessidade do realismo são sentidas com intensidade e o distanciamento resulta num filme tão frio quanto o “Homem do Gelo”.
















0 comentários